ENTRE UM & OUTRO
sob todos os aspectos, a paixão estava sendo monitorada para permanecer verdadeira, íntegra, fulminante…
as diferenças foram todas mantidas intactas, sem contágios com coisas frívolas que, expostas ao acaso, perdem todo o sentido…
a paixão foi inventada e a invenção foi tentar realizá-la autônoma e independente fora da economia do desejo…
o desafio era sobreviver às suas contradições fora do território da libido, confundindo tempo e espaço; correndo um intolerável e inexplicável perigo…
tudo para que fosse possível fazer dela …uma obra de arte!
eterna como o amor, a paixão ao amor ascenderia a partir de uma contagem regressiva…
na perspectiva do passado, motivaria todas as poesias que por ventura fosse escritas sob a orientação de sua fulminante força centrípeta…
motivaria poemas e aproximaria o futuro que fosse disponível à minha vida…
quando passasse, não haveria nada a ser explicado ou discutido; sendo tudo entendido onde nada foi permitido ou proibido…
o que viesse ao meu encontro, em rota de colisão, seria bem vindo…
o confronto apaixonado não previa encontros nem os desencontros seriam propícios; todos os fins seriam novos princípios, mesmo que sobrassem finalidades e faltassem objetivos…
o amor queimaria excessos naquela fogueira de vaidades, com seu combustível mágico poupado das baixarias…
a paixão iria lentamente aumentando a velocidade para encontrar sua cara-metade na contra-mão; logo que a vertigem, atraída pela queda, procurasse um fundo para seu abismo…
os freios para o contato falhariam, tão necessários quanto descartáveis, tão aceitáveis quanto imprevisíveis…
…e lá íamos nos: fluindo na mesma estrada
cada qual com sua paisagem, cumprindo sua distância, indo no sentido contrário do outro, como imagens num espelho: cada um do seu lado se divertindo ao ver o outro, do outro lado, invertido…
contínuo e incondicional, meu amor superava estágios, impassível, vencendo obstáculos invencíveis, indo sempre em direção do infinito…
a paixão, descontínua e instável, queimava etapas, cada vez mais sensível, indo em direção ao nada, zerando posições que se autodestruiriam tão logo fosse anuladas e resolvidas…
… ora eu era um; ora, era o outro …
ninguém era a cara-metade de ninguém nem, em alguém, alguém se complementaria: os suplementos seriam divididos entre um e outro…
cada qual num pólo do ima partido: um, ansioso; o outro, intranquilo … um, perigoso, o outro, a perigo…
um desejando mais do que podia; o outro querendo mais do que pedia; ambos se livrando do que nunca nos alcançaria…
se um era uma dúvida de rasgar coração, o outro era uma solução final: cruel e fria…
ambos estavam entre a vida e a morte, cada qual vivendo sua vida: nenhum interesse mútuo, nenhuma vontade recíproca e a obra de arte sendo construída independente das desilusões de um e indiferente aos sofrimentos do outro, entre a lâmina e o gume, perto do fim … no limite!
apesar de fria, não havia nenhuma frivolidade naquela paixão perdida: além de incerto, só sossobrariam ao desmoronamento do castelo das cartas marcadas algumas maldades que, ao que tudo indica, foram todas premeditadas e realizadas com a serenidade dos profissionais do crime…
se um acusasse ferimentos e dor: o sadismo do outro ia à loucura: o jogo não tinha regras nem foi combinado: ninguém ganhava nem perdia, se um apostava: o outro, à aposta cobria, pagando pra ver o que o outro escondia…
não era doença e, se fosse, não teria cura…
era diferente de tudo que fosse sensato: músic quase incidental feita com ruídos, sem harmonia ou melodia…
um caía de quatro; o outro, subia em cima e se divertia … se um estivesse se sentindo humilhado, o outro superava o fato e esquecia, zombando do que reclamava com a soberba dos monarcas esclarecidos diantes dos bobos que às suas cortes serviam…
faltavam peças no dominó; o baralho ignorava a versatilidade dos coringas; o jogo era justo mas não era limpo: alguém escondeu seus ...segredinhos mais íntimos!
a amizade virou uma piada, o pacto rompe-se e a sorte não era amiga de ninguém que dela dependesse…
a mentira, irada e realista, dava show de dança na pista…
a sinceridade, sensível aos contrastes, tornou-se surrealista: um era descontrolado e egoísta; o outro, pragmático e narcisista … ambos eram ...artistas!
os dentes da engrenagem pediam graxa quando friccionados, um no outro sentiam repugnância pelo que era óbvio e reagiam como se fossem mar e rochedo num dia de resaca e chuva fria…
a máquina era cubista!
o coração parava … a respiração ofegava … a cabeça explodia!
o amor incondicional expandia o que a paixão desgastava e excluía: um chegava no topo; o outro, melancolicamente desorientado, caía…
a obra de arte nunca estaria pronta, afinal de contas, nada de real existia: tudo que estava mal, pioraria…
não há calma numa paz que entedia: az, só depois de um orgasmo que vai buscar prazer e gozo num mergulho profundo até voltar a superfície para afirmar que a paz é a coisa mais sensual deste mundo!
não havia nada demais: tudo aquilo acabou virando uma sensação vadia e o apaixonado foi sendo esgotado e o que era apaixonante nem o via, já que, cego por uma paixão alucinante, contra tudo que lhe fosse angustiante, acabava de encontrar …o amor da sua vida!
uma obra de arte original estava sendo criada sem sacrifício, tão única que parecia viva…
apesar da aflição, não havia tristeza e, mesmo que aos trancos e barrancos, sua aparência era bonita…
o belo sempre tem uma carta na manga…
a beleza era mais intensa do que a luz de um sol, que eclipsa!
a beleza é uma super-nova … uma estrêla-guia!
mesmo que a morte os alcançasse, e que a um deles não desse nenhuma chance, a obra de arte estaria viva no outro que sobrasse depois que a paz voltasse e permitisse a ambos uma nova …anarquia!
a arte é tudo quando tudo que há está em jogo e este jogo nada mais é do que … a vida!
a beleza é sempre uma promessa de felicidade!